Repatriação de fósseis: Brasil intensifica esforços para reaver patrimônios de 14 países

Repatriação de fósseis: Brasil intensifica esforços para reaver patrimônios de 14 países

Internacional

O Brasil está em uma ofensiva diplomática e jurídica para reaver bens inestimáveis, como fósseis de dinossauros e artefatos culturais, que foram retirados ilegalmente do seu território e hoje se encontram em museus e coleções privadas ao redor do mundo. Essa mobilização, liderada pelo governo, Ministério Público e instituições científicas, visa combater o que é conhecido como colonialismo científico, uma prática que historicamente subtraiu riquezas naturais e culturais do país, prejudicando a pesquisa e a valorização do patrimônio nacional.

Atualmente, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) conduz pelo menos 20 negociações de restituição com nações que detêm esses bens. A iniciativa busca não apenas recuperar peças de valor incalculável, mas também reafirmar a soberania brasileira sobre seu patrimônio e fomentar o desenvolvimento da ciência e da cultura dentro do próprio país.

A Luta Contra o Colonialismo Científico e a Perda de Patrimônio

O colonialismo científico é um termo que descreve a prática de países mais desenvolvidos ou com maior poder aquisitivo de extrair recursos naturais e culturais de nações em desenvolvimento, muitas vezes sem a devida autorização ou compensação. No contexto brasileiro, isso se manifesta na retirada ilegal de fósseis e artefatos, que acabam em acervos estrangeiros, privando o Brasil de estudar e exibir sua própria história natural e cultural.

Além do MRE, a Procuradoria-Geral da República no Ceará tem sido uma força motriz na repatriação de fósseis. Os Estados Unidos lideram a lista de países com o maior número de pedidos de devolução de patrimônios brasileiros, com oito ações em andamento. Seguem-se a Alemanha (quatro), Reino Unido (três) e Itália (duas). França, Suíça, Irlanda, Portugal, Uruguai e Japão têm uma solicitação cada. Duas solicitações destinadas à Espanha e outras duas enviadas à Coreia do Sul, no entanto, foram rejeitadas, mostrando a complexidade e os desafios dessas negociações.

Grandes Vitórias: do Irritator ao Manto Tupinambá

Os esforços de repatriação de fósseis e outros bens têm rendido frutos significativos nos últimos anos. No mês passado, um acordo histórico entre Brasil e Alemanha prometeu o retorno do dinossauro Irritator challengeri ao sertão do Araripe, no Ceará. Este espinossaurídeo, que podia atingir até 14 metros de altura e viveu há cerca de 116 milhões de anos na região, foi retirado ilegalmente do Brasil e estava no Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, na Alemanha, desde 1991. Sua volta é um marco para a paleontologia brasileira.

Outro sucesso notável ocorreu em 2024, com a repatriação do Manto Tupinambá, um artefato indígena do século 17 que estava na Dinamarca. Em fevereiro do mesmo ano, 45 fósseis originais da Bacia do Araripe, no Ceará, também retornaram ao Brasil após serem recuperados da Suíça. Esses casos demonstram a capacidade do Brasil de reaver seu patrimônio, seja ele paleontológico ou cultural, e a importância da colaboração entre diferentes esferas do governo e instituições.

Legislação Brasileira e a Proteção dos Fósseis

No Brasil, os fósseis são protegidos por legislação específica, como o Decreto 4.146 de 1942, que estabelece que o patrimônio natural não pode ser de propriedade privada, pertencendo à União. Isso significa que qualquer fóssil encontrado em solo brasileiro é considerado um bem público, e sua comercialização ou exportação é estritamente regulamentada.

O professor Allysson Pinheiro, diretor do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri (CE), ressalta que a exportação de fósseis só é permitida com autorização expressa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e o receptor do material deve ter vínculo com uma instituição brasileira. “Há vários países que permitem o comércio de fósseis com empresas especializadas nessas vendas. Mas elas não podem vender fósseis do Brasil”, explica Pinheiro, da Universidade Regional do Cariri (Urca), enfatizando a ilegalidade do comércio de fósseis brasileiros no exterior.

O Caso Ubirajara Jubatus: Um Marco na Repatriação

A restituição de patrimônios brasileiros ganhou um impulso significativo com o retorno do pequeno dinossauro Ubirajara jubatus em 2023. Atualmente, o exemplar compõe o acervo do museu de Santana do Cariri, no Ceará. A paleontóloga Aline Ghilard, coordenadora do Laboratório de Dinossauros (DinoLab) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), destaca o papel crucial da pressão pública nesse caso.

Em 2020, o museu alemão que detinha o fóssil inicialmente se recusou a devolvê-lo, alegando regularidade na aquisição. No entanto, a mobilização de brasileiros nas redes sociais, com comentários que “devastaram” as páginas do museu, foi um ponto de virada. “Esse foi justamente o ponto de virada na história”, afirma Ghilard, explicando que a repercussão negativa afetou a imagem da instituição e impulsionou o acordo para a devolução do material, evidenciando o poder da sociedade civil na defesa do patrimônio.

O Impacto do Saque Científico na Pesquisa Nacional

Aline Ghilard critica veementemente o colonialismo científico, afirmando que “a maior parte dos museus europeus está recheada com materiais de territórios que foram colônias ou que têm sido, até hoje, explorados numa lógica de assimetria de poder. Esses países se sentem no direito de vir aos nossos territórios e coletar materiais.” Essa prática não apenas esvazia os acervos brasileiros, mas também impede que pesquisadores locais tenham acesso direto a esses materiais para estudo, dificultando o avanço da ciência no Brasil.

Um estudo publicado na Palaeontologia Electronica, com participação de Ghilard, revelou que pelo menos 490 fósseis de espécies de macroinvertebrados foram extraídos irregularmente da Bacia do Araripe entre 1955 e 2025. A pesquisa analisou 218 publicações e constatou que quase metade delas (104) foram escritas exclusivamente por pesquisadores estrangeiros, sem coautores brasileiros. Outro estudo identificou que, entre 1990 e 2020, 88% dos macrofósseis da Bacia do Araripe do período Cretáceo descritos em 71 publicações foram resultado de análises de materiais que não estavam no Brasil.

Esses dados sublinham a urgência e a importância da campanha de repatriação de fósseis e outros patrimônios, não só para a guarda física desses bens, mas para a autonomia e o fortalecimento da pesquisa científica e cultural brasileira. A luta pela restituição é uma forma de reescrever a história, garantindo que as futuras gerações de brasileiros possam aprender e se orgulhar de seu rico legado.

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