A proposta de emenda à Constituição (PEC) 65 de 2023, em tramitação no Senado Federal, que visa conceder autonomia financeira e orçamentária ao Banco Central (BC), tem gerado intenso debate e preocupação entre economistas brasileiros. Um manifesto assinado por renomados especialistas alerta que, ao invés de fortalecer a instituição, a medida pode abrir precedentes para a cooptação da autoridade monetária pelo setor financeiro, além de perpetuar o cenário de juros elevados no país. A discussão, que ganha corpo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, coloca em xeque a governança e a fiscalização de um dos pilares da estabilidade econômica nacional.
Autonomia do Banco Central em Debate: A PEC 65/2023 e seus Riscos
A PEC 65/2023 propõe uma ampliação significativa da autonomia do Banco Central, que já possui independência administrativa e operacional desde 2021. A novidade reside na autonomia financeira e orçamentária, permitindo que o BC retenha recursos próprios, como os provenientes da senhoriagem – a receita gerada pela emissão de moeda. Para os signatários do manifesto, essa “independência seletiva” afasta o Banco Central do controle democrático exercido pelo Congresso, Tribunal de Contas da União (TCU) e Poder Executivo, enquanto o mantém vulnerável às influências do mercado financeiro.
O documento, publicado nesta semana, sustenta que a PEC fragiliza a fiscalização, o controle social e a responsabilização do Banco Central, além de aumentar a dívida pública. Os economistas argumentam que a proposta poderia criar um modelo único no mundo, reunindo autonomia financeira e operacional da autoridade monetária sem os devidos contrapesos.
Conflito de Interesses e Juros Elevados: O Alerta dos Especialistas
Um dos pontos mais críticos levantados pelos economistas é o potencial conflito de interesses. O manifesto argumenta que, ao se beneficiar da senhoriagem, que está intrinsecamente ligada às condições macroeconômicas e, em particular, aos juros, o Banco Central passaria a ter um incentivo institucional para a manutenção de taxas elevadas. “O BC passaria a se beneficiar institucionalmente de condições macroeconômicas que deveria administrar em nome do interesse público, e não de seu próprio orçamento”, afirmam os especialistas.
Essa preocupação é amplificada pelo cenário atual: o Brasil, hoje, ostenta as segundas maiores taxas de juros reais do mundo, superado apenas pela Rússia, um país em guerra. Os juros altos são apontados como o principal motor do crescimento da dívida pública nacional, impactando diretamente a economia e o bolso dos cidadãos.
Fragilidade na Fiscalização e o “Regulador Capturado”
A proposta também é vista como um enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e controle social. Ao retirar o orçamento do Banco Central da Lei Orçamentária Anual (LOA) e reduzir a jurisdição do TCU, a PEC “desmonta esses mecanismos sistematicamente”, segundo o manifesto. Essa fragilização é ainda mais preocupante quando se considera que o BC é responsável por aprovar, supervisionar e, eventualmente, socorrer as mesmas instituições financeiras que, indiretamente, poderiam influenciar seu orçamento. Os economistas descrevem essa situação como a “definição clássica de um regulador capturado”, onde os incentivos do agente se alinham aos interesses dos regulados, em detrimento do público.
O manifesto ainda cita o polêmico “Caso Master”, uma emenda à PEC apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), sob suspeita de ter sido redigida por uma instituição financeira para ampliar a capacidade de fraude no sistema. Para os especialistas, um Banco Central com autonomia orçamentária e blindagem parlamentar se torna “estruturalmente, um regulador mais vulnerável à pressão do setor que regula”, incluindo interferência política e de lobistas na nomeação de diretores e na composição do quadro funcional.
Impacto na Dívida Pública e o Cenário Internacional
Outra preocupação central é o impacto da PEC na dívida pública. Atualmente, a receita da senhoriagem contribui para o abatimento da dívida. Com a proposta, esses recursos seriam retidos pelo Banco Central como “receita própria”, deixando de ser transferidos para o Tesouro Nacional. Entre 2017 e 2025, a senhoriagem anual foi de R$ 23,3 bilhões, enquanto o orçamento do BC foi de R$ 4,8 bilhões no mesmo período. Essa “apropriação patrimonialista” e a “imensa frouxidão fiscal” do BC contrastam com as exigências de corte de gastos sociais frequentemente defendidas pelo mercado financeiro e pela própria direção do Banco Central.
Os economistas também refutam o argumento de que a PEC se alinha às melhores práticas internacionais. Eles afirmam que “nenhum dos principais bancos centrais do mundo possui a combinação de autonomia financeira, isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC pretende criar”, citando como exemplo os modelos dos Estados Unidos, Reino Unido, Zona do Euro e Japão, que mantêm diferentes níveis de controle e supervisão. Entre os signatários do manifesto estão figuras como Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda, e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda.
Defensores da Proposta: A Visão do Banco Central e do Setor Financeiro
Apesar das críticas, a PEC 65/2023 conta com defensores de peso. A própria direção do Banco Central, liderada pelo presidente Gabriel Galípolo, tem argumentado a favor da proposta, alegando que a instituição necessita de mais recursos para cumprir sua missão de fiscalizar e regular o sistema financeiro de forma eficaz. O setor bancário privado também se manifesta favoravelmente. Entidades como a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apoiam a medida, indicando um alinhamento de interesses entre a autoridade monetária e os regulados, o que, para os críticos, reforça os temores de cooptação.
O debate em torno da autonomia do Banco Central e da PEC 65/2023 é complexo e de grande relevância para o futuro econômico do Brasil. Acompanhe os desdobramentos desta e de outras notícias que impactam diretamente a sua vida e o cenário nacional. O Vitória em Dia mantém você informado com reportagens aprofundadas, análises contextualizadas e a credibilidade que você merece. Continue navegando em nosso portal para ter acesso a um conteúdo diversificado e de qualidade.


