Uma decisão judicial concedeu tutela cautelar para resguardar empresas vinculadas ao grupo Apex Partners contra cobranças e execuções enquanto a situação financeira do conglomerado é investigada. A medida alcança 178 negócios associados ao grupo, segundo os documentos apresentados ao Judiciário.
A inclusão de um nome ligado ao grupo em uma lista societária não significa, porém, que todas as companhias estejam em dificuldade ou passarão por intervenção. A própria documentação ressalta que há patrimônios segregados — como cotas de fundos, recebíveis imobiliários e sociedades de propósito específico — que devem ser analisados individualmente.
Setores com participação do grupo
Os registros mostram exposição do grupo em diversos setores da economia: alimentação, saúde, educação, tecnologia, aviação e veículos de investimento que atuam como fundos ou holdings. Entre os exemplos identificados nos documentos constam:
- Alimentação: Trem Alimentos S.A.; AFS Alimentação S.A.; AFS Alimentação Vitória Ltda.
- Saúde: CMSM – Clínica Médica Saúde Melhor S.A.; VC Maya Tec Saúde (healthtech).
- Educação: Fucape Pesquisa e Ensino S/A (participação adquirida por fundo ABMPar).
- Tecnologia e startups: VC Shipp Participações; VC Zaitt Participações; VC Singu Participações.
- Aviação: BRM Apex INV VCPE A2 Aviation LTDA.; PSAPX Participações Ltda. (referências a operações de leasing de aeronaves).
O caso Zé Coxinha
Um exemplo que ilustra a cadeia de investimentos envolve a rede capixaba de salgados Zé Coxinha. Em 2024, a marca foi comprada pela Tastefy (antiga ATW Delivery Brands). A Apex havia aportado R$ 10 milhões na Tastefy por meio do fundo chamado Apex Crescimento Mercados Regionais, identificado nos documentos como BRM Apex VCPE Zé Coxinha Participações LTDA. Ou seja: a relação se dá por meio de um investimento em uma empresa que adquiriu a rede, e não por uma compra direta da Zé Coxinha pelo grupo.
Após a aquisição, a Tastefy ampliou a produção na fábrica localizada na Serra: segundo a empresa, a produção passou de 1 milhão para 2 milhões de salgados por mês e houve projeção de faturamento de R$ 220 milhões em 2025.
Startups e transações anteriores
Documentos citam empresas de tecnologia e serviços que, em distintos momentos, receberam recursos ligados a veículos do grupo. Entre elas:
- Maya Tec Saúde: em 2022 a startup recebeu R$ 300 mil como prêmio ao vencer um reality show; a empresa informou que esse foi o único aporte oriundo do grupo.
- Shipp e Zaitt: ambas foram fundadas pelo empresário Rodrigo Miranda. Em 2020 a Sapore adquiriu os empreendimentos da Shipp e Zaitt; a Shipp foi posteriormente integrada ao grupo Americanas (tornou-se Americanas Delivery) e encerrou operações em 2024. A Zaitt foi vendida para o grupo Buybye e passou a operar com a nova identidade da compradora; o cantor Lucas Lucco consta entre investidores do Buybye.
- Segundo a assessoria de Rodrigo Miranda, a Zaitt nunca recebeu aporte de veículos ligados ao Apex; a Shipp recebeu um aporte em 2018 que foi recompra do grupo em 2019 no momento da venda total para a Sapore, e desde então não mantém vínculo societário, contratual ou financeiro com o Apex ou seus veículos.
Educação: a participação na Fucape
O fundo de investimento ABMPar, controlado pelo grupo, adquiriu em 2025 uma fatia de 40,3% das ações da Fucape que pertenciam ao professor Aridelmo Teixeira, fundador da instituição em 2000. O fundo já detinha 10% da escola de negócios desde 2020. Em encontro recente com a Justiça, a Fucape afirmou que é sociedade operacional da economia real e que não possui problemas de solvência ou inadimplência, defendendo que sua inclusão na ação preparatória para recuperação judicial seria equivocada; a instituição tomou providências para excluir seu nome do processo na segunda‑feira (10).
Aviação e passivos
Os autos também mencionam operações de leasing vinculadas a cinco aeronaves, com dívidas relacionadas na ordem de R$ 42,3 milhões. Nos processos que motivaram a tutela cautelar há referência a um passivo aproximado de quase R$ 1 bilhão, mas não está claro se todas as empresas citadas nos documentos integram esse montante.
O que significa aparecer na estrutura do grupo
Especialistas consultados destacam que um investidor pode atuar de formas distintas: comprar controle acionário, entrar como sócio minoritário via fundos, criar holdings para gerir participações ou abrir sociedades de propósito específico (SPE) para isolar riscos. Por isso, a presença de nomes relacionados ao grupo não implica necessariamente administração direta ou responsabilidade operacional pelo conglomerado.
Entendimento do economista Vaner Corrêa
O economista Vaner Corrêa afirma que a diversificação é prática comum entre gestoras de capital: “Quem tem capital se aproxima de quem precisa de capital.” Segundo ele, esses veículos avaliam projetos com base em retorno esperado e risco, buscando compor carteiras com ativos de liquidez, rentabilidade e segurança variadas.
Corrêa ressalta ainda que diversificar não elimina riscos: é necessário acompanhar cada operação, implantar mecanismos de controle, auditoria e compliance, sobretudo quando há recursos de terceiros envolvidos.
Termos comuns nas holdings
- VC (Venture Capital): fundos que investem em startups com alto potencial de crescimento e elevado risco.
- PE (Private Equity): investimentos em empresas que não têm ações negociadas em bolsa, com objetivo de reestruturar e vender no futuro.
- SPE (Sociedade de Propósito Específico): pessoa jurídica criada para um objetivo determinado, usada para isolar riscos ou viabilizar projetos específicos.
Conclusão
A tutela cautelar abre prazo para que a situação financeira do grupo seja clarificada e para que seja decida eventual recuperação judicial. Enquanto a apuração ocorre, a complexidade da estrutura societária — com fundos, holdings e SPEs — exige avaliação caso a caso para entender quais empresas, se houver, serão efetivamente afetadas pelas medidas judiciais.
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