Proposta de venda de participação na Fifa reacende debate sobre gestão comercial e riscos

Proposta de venda de participação na Fifa reacende debate sobre gestão comercial e riscos

Futebol

A proposta da Fifa de concentrar a exploração comercial de seus principais ativos em uma nova empresa, a Fifa Forward Enterprise (FFE), e de vender uma participação minoritária dessa unidade a investidores privados provocou reação imediata de federações europeias e reacendeu comparações com modelos de parceria do passado.

Especialistas ouvidos afirmam não haver, até o momento, indícios de irregularidade ligados à iniciativa, mas ressaltam que o projeto traz à tona discussões antigas sobre a relação entre a entidade e empresas que transformam direitos esportivos em receita.

Semelhanças e diferenças com antigos parceiros comerciais

Caso-se a proposta avance, a Fifa centralizaria a gestão comercial de ativos como a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes em uma subsidiária própria, na qual investidores teriam participação minoritária, enquanto o controle majoritário permaneceria com a entidade.

O especialista em marketing esportivo Fernando Fleury, PhD em Comportamento do Consumo, aponta paralelos arquiteturais com empresas históricas do setor, como ISL e Traffic, e com modelos mais integrados, como o da LiveMode. Segundo ele, a mudança crucial é que, em vez de contratar terceiros para explorar direitos, a Fifa passaria a permitir que capitais privados participem economicamente da própria estrutura que gera receita a partir desses direitos.

Fleury observa que essa incorporação de interesses privados à estrutura comercial da Fifa altera os incentivos e a permanência das decisões: enquanto parcerias antigas podiam ser desmontadas com mais facilidade, uma participação societária tornaria mudanças futuras mais complexas.

O que mudou agora?

Nos anos 1980 e 1990 a ISL foi a principal parceira comercial da entidade, negociando patrocínios e direitos de marketing; após a falência da empresa, investigações apontaram pagamento de propinas a dirigentes para assegurar contratos. Mais recentemente, o chamado Fifa Gate revelou esquemas de corrupção envolvendo negociações de direitos, especialmente nas Américas.

Para o advogado especialista em direito esportivo internacional Eduardo Carlezzo, entretanto, a estrutura prometida pela Fifa difere materialmente dos modelos do passado. Ele destaca que a FFE seria uma subsidiária controlada pela própria entidade, com investidores minoritários sem poder de gestão, enquanto modelos anteriores envolviam empresas externas que detinham maior autonomia sobre direitos.

Carlezzo também lembra que o projeto precisará passar por voto das federações filiadas — um mecanismo que não existia nos contratos firmados com empresas como a ISL — e que a governança da Fifa evoluiu desde os escândalos anteriores. Entre as mudanças institucionais citadas estão a divisão do Comitê de Ética em câmaras de investigação e julgamento, a adoção de um Código de Conduta, a criação de um comitê de auditoria independente e canais de denúncia confidenciais.

Preocupações sobre incentivos comerciais

Embora a legalidade do plano não esteja sendo contestada publicamente por especialistas, persistem dúvidas sobre os incentivos que a participação de capital privado pode criar. Entre as questões levantadas estão a forma de remuneração dos investidores, a duração do investimento, cláusulas de recompra e o grau de influência que sócios minoritários poderiam exercer sobre decisões estratégicas.

Fleury adverte que o risco muda de natureza: não se trata apenas de dependência em relação a um parceiro externo, mas da possibilidade de interesses privados estarem formalmente incorporados à máquina comercial da entidade e, por isso, mais difíceis de reverter. Por essa razão, diz ele, o debate sobre regras, limites e mecanismos de governança deveria ocorrer antes de qualquer implementação da iniciativa.

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via A Gazeta – Futebol