Nesta segunda-feira, 25 de maio, o Brasil celebra o Dia da África com uma agenda diplomática e comercial intensificada, marcando um esforço do atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva para aprofundar as relações com o continente. A iniciativa visa não apenas diversificar os parceiros comerciais do país, mas também fortalecer os laços culturais, diplomáticos, científicos e históricos que unem brasileiros e africanos.
A aproximação tem sido palpável, com o presidente Lula realizando sete viagens à África em sua gestão, incluindo visitas à África do Sul (duas vezes), Angola, São Tomé e Príncipe, Egito, Etiópia e Moçambique. Paralelamente, Brasília recebeu seis chefes de Estado africanos, como Patrice Talon do Benim, Bola Tinubu da Nigéria e João Lourenço de Angola, resultando na assinatura de importantes acordos e memorandos de entendimento em diversas áreas.
Uma agenda diplomática renovada para a integração Brasil África
Nos últimos três anos, o Brasil tem consolidado uma série de acordos com nações africanas. As parcerias abrangem setores cruciais como agricultura, aviação civil, defesa, saúde, educação e turismo, sinalizando um compromisso robusto com a cooperação mútua. Essa movimentação reflete a busca por novas frentes de atuação em um cenário global que exige diversificação e resiliência nas relações internacionais.
O embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte, secretário de África e Oriente Médio do Ministério das Relações Exteriores (MRE), destacou a relevância estratégica do continente. Segundo ele, a África, com sua vasta diversidade e um mercado potencial de 1,5 bilhão de habitantes, dos quais mais de 60% têm menos de 25 anos, oferece oportunidades econômico-comerciais significativas. Em um contexto de maior protecionismo por parte de países desenvolvidos, a busca por novos parceiros torna-se ainda mais imperativa para o Brasil.
Laços históricos e culturais profundos
A conexão entre Brasil e África é intrínseca e remonta a séculos de história. O Brasil foi o principal destino de africanos escravizados, recebendo cerca de 4,8 milhões dos 12 milhões de seres humanos sequestrados do continente entre os séculos XVI e XIX. Essa herança moldou profundamente a cultura e a identidade brasileiras, criando uma base para aprofundar as relações atuais.
Um exemplo notável dessa ligação é a relação com Angola. No período colonial, a conexão era tão forte que elites comerciais em Luanda e Benguela chegaram a defender a anexação de Angola ao Brasil recém-independente. Atualmente, o Ministério da Cultura do Brasil e Angola assinaram acordos para integrar arquivos históricos sobre a escravidão e fortalecer a cooperação cultural e artística, buscando expandir a parceria para além dos tradicionais setores de petróleo e agronegócio.
Para marcar o Dia da África, o Itamaraty realizou um seminário sobre a parceria entre os países, e o presidente Lula participou do 1º Fórum de Reitores Brasil-África, organizado pelo Ministério da Educação (MEC), reforçando o compromisso com a troca de conhecimentos e o desenvolvimento conjunto.
Parceria “com a África”, não “para a África”
A postura brasileira de colaboração foi elogiada pelo decano do corpo diplomático africano em Brasília, o embaixador de Camarões, Martin Agbor Mbeng. Durante a cerimônia no Itamaraty, Mbeng agradeceu o voto do Brasil na ONU para reconhecer a escravidão de africanos como o maior crime contra a humanidade da História, um gesto de grande simbolismo e reconhecimento histórico.
O diplomata camaronês ressaltou o potencial de instituições brasileiras como Fiocruz, Embrapa, CNPq e o Instituto Brasil-África para construir programas de desenvolvimento. Ele enfatizou a importância de uma parceria genuína, que seja “com a África” e não “para a África”, implicando planejamento, responsabilidade e prestação de contas compartilhados. Mbeng também elogiou a defesa do Brasil por um sistema multilateral de comércio baseado em regras, especialmente na Organização Mundial do Comércio (OMC), que tem enfrentado desafios.
Desafios e oportunidades no comércio bilateral
Apesar da intensa atividade diplomática e dos laços históricos, a participação da África no fluxo comercial brasileiro ainda é modesta. Em 2025, o continente respondeu por apenas 5,70% do comércio exterior do Brasil, totalizando US$ 23,7 bilhões em corrente comercial, com um superávit de US$ 7,2 bilhões favorável à balança brasileira. Em comparação, a Europa representa 31,95% e a América do Sul, 17,28% do comércio internacional do país.
O embaixador Carlos Sérgio Sobral Duarte reconhece que, embora o comércio com a África tenha melhorado nos últimos anos, há um vasto potencial inexplorado. Desde 2020, o intercâmbio comercial cresceu 52%, e 16% desde 2023, o primeiro ano do governo Lula, apesar de uma leve queda de 2,3% em 2025 em relação a 2024. O diplomata aponta que um certo desconhecimento das oportunidades em ambos os lados ainda precisa ser superado para impulsionar ainda mais esses números.
A professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Elga Lessa de Almeida, observa que a conjuntura econômica atual apresenta desafios para a integração. Ela menciona que, em governos Lula anteriores, linhas de financiamento para internacionalização de empresas, como Petrobras e Odebrecht, facilitavam a atuação na África, algo que não se observa com a mesma intensidade hoje. O presidente Lula, contudo, tem defendido o retorno da atuação da Petrobras e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no continente, por meio de investimentos e parcerias, sinalizando o desejo de reativar esses importantes vetores de cooperação.
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