Documentos apresentados à Justiça indicam que as debêntures representam a maior parcela individual das obrigações da Apex Partners: de R$ 985,6 milhões em passivos reportados, R$ 452,1 milhões — cerca de 46% do total — estão vinculados a esse tipo de título.
Ao contrário de ações, debêntures são títulos de dívida: ao comprá-las, o investidor empresta recursos à empresa emissora em troca da promessa de pagamento do principal acrescido de juros nas condições pactuadas. Segundo o especialista em mercado de capitais Adriano Salvi, esse instrumento permite que companhias captem recursos diretamente do mercado, mas não conta com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Entre as emissões citadas na documentação consta uma oferta da BRM Apex Investimentos no valor de R$ 82,4 milhões. Também consta uma obrigação de R$ 79,3 milhões com a Gazin Holding, prevista em dez parcelas — a primeira, com vencimento em junho, não foi quitada.
As emissões relacionadas ao grupo foram realizadas de forma privada por meio da Rhino Securitizadora S.A. e previam remunerações distintas: algumas atreladas ao CDI, entre 110% e 130%, e outras indexadas ao IPCA com acréscimo de 1,1% a 1,3% ao mês.
Risco versus retorno
Taxas elevadas podem tornar uma debênture atraente, mas refletem risco. Salvi lembra o princípio básico dos mercados: quanto maior o retorno ofertado, maior o risco assumido. Em títulos de dívida corporativa, o pagamento depende da capacidade financeira da empresa emissora — se ela tiver dificuldades, pode ocorrer inadimplência (default).
Para onde foi o dinheiro captado
Levantamentos financeiros sobre o grupo apontam que, dos cerca de R$ 300 milhões captados no primeiro semestre de 2026, aproximadamente 58% teriam sido destinados ao custeio de custos operacionais internos, e não à geração de novos ativos produtivos. A documentação de cada emissão normalmente traz o chamado “use of funds” (uso dos recursos), informação essencial para avaliar se a aplicação tem chance realista de gerar caixa suficiente para honrar a dívida.
Indicadores e avaliação
Uma métrica frequentemente usada para medir o grau de alavancagem é a relação dívida líquida/Ebitda, que compara o endividamento líquido com a geração operacional de resultados. Salvi cita que um patamar superior a 2,5 pode ser um sinal de atenção, embora esse número não deva ser interpretado isoladamente — é preciso também observar balanços, fundamentos do negócio, previsões de receita e as cláusulas específicas da emissão.
Ausência de cobertura do FGC e caminhos em caso de inadimplência
Como as debêntures não têm proteção do FGC, investidores não contam com o mecanismo para reaver automaticamente valores em caso de calote. A recuperação pode envolver atuação do agente fiduciário, medidas de arbitragem ou ações judiciais, dependendo da estrutura contratual da emissão. Em geral, a recuperação em situação de default tende a ser mais complexa e demorada.
Função do agente fiduciário
O agente fiduciário representa coletivamente os interesses dos detentores das debêntures e deve monitorar o cumprimento das obrigações previstas na emissão. Em situações de descumprimento, esse agente pode acionar mecanismos previstos na documentação para tentar recuperar créditos ou negociar soluções com a companhia.
Recomendação para pequenos investidores
Salvi alerta que debêntures, especialmente emissões privadas, exigem análise mais aprofundada do que aplicações bancárias tradicionais. Antes de investir, é necessário entender quem é o emissor, qual é o nível de endividamento, a destinação dos recursos captados, as garantias oferecidas, a reputação do agente fiduciário e as condições contratuais — inclusive cláusulas de aceleração, garantias reais e procedimentos em caso de default.
Posição da Apex
A Apex informou que identificou “inconsistências financeiras” na companhia e que contratará uma auditoria externa e independente para dimensionar os impactos. A empresa afirmou que todos os esforços estão voltados a entender a situação e honrar os compromissos assumidos no mercado, e acrescentou que os valores mencionados na ação judicial não representam obrigações vencidas ou imediatas, mas compromissos de longo prazo que serão validados pela auditoria.
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