O Centro Integrado de Comando e Controle para o Enfrentamento dos Impactos do El Niño (CICC El Niño) divulgou, nesta terça-feira (21), o primeiro boletim que aponta a previsão de intensificação do calor e o agravamento da estiagem no Espírito Santo nos próximos meses.
O documento informa alta confiabilidade de que as temperaturas fiquem acima da média em todo o estado entre julho e setembro, num cenário em que todas as estações hidrológicas monitoradas já registram vazões inferiores às médias históricas para o período.
Sobre as chuvas, os modelos climáticos ainda mostram resultados divergentes e não permitem afirmar se os volumes trimestrais ficarão acima, na média ou abaixo do esperado.
El Niño já estabelecido e com chance elevada de se tornar muito forte
As análises do boletim confirmam que o El Niño está estabelecido e deverá se intensificar ao longo do segundo semestre. A probabilidade de o fenômeno atingir a categoria muito forte entre a primavera e o início do verão do Hemisfério Sul subiu para 81%, com pico previsto entre outubro e dezembro.
O índice que acompanha a temperatura das águas do Pacífico equatorial passou de cerca de 0,7 ºC acima da referência em junho para 1,2 ºC em julho. A previsão é de continuidade do aquecimento durante o inverno, favorecendo a consolidação de um evento de intensidade forte a muito forte, com impactos que tendem a se tornar mais evidentes a partir da segunda quinzena de agosto, principalmente em setembro e outubro. Há projeção de que o efeito do El Niño possa persistir durante o verão e se estender até o trimestre entre fevereiro e abril de 2027.
Vazões abaixo da média em todo o estado
O monitoramento da Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) indica redução generalizada da disponibilidade hídrica superficial. Nos últimos 30 dias, todas as estações indicadoras registraram vazões inferiores às médias históricas mensais.
As bacias dos rios Doce (nas estações Colatina Ponte e Santa Joana), Jucu, Santa Maria da Vitória, Itabapoana e Benevente foram identificadas em estado de alerta, com vazões abaixo da Q90 — referência usada para caracterizar baixa disponibilidade hídrica. A bacia do Rio Benevente é a mais crítica, com vazões próximas ao limite de restrição do uso, equivalente a 50% da Q90.
Os rios São Mateus, Itapemirim e Guandu também apresentam vazões menores que a média histórica, mas permanecem por enquanto acima do nível de alerta; Itapemirim e Guandu estão porém próximos desse limite. As chuvas registradas nas últimas semanas trouxeram apenas recuperação temporária: os níveis subiram momentaneamente e voltaram a cair rapidamente, indicando reposição insuficiente para reverter o quadro.
Para o período entre 20 e 27 de julho, a Agerh prevê que Santa Maria do Doce, Benevente, Muqui do Sul e Castelo devam permanecer com vazões abaixo da Q90. Santa Joana, Guandu, Pancas e Liberdade devem seguir acima dessa referência, enquanto o Rio Iconha exige acompanhamento por estar próximo do limite crítico.
Pontos de captação e abastecimento
Das 103 captações gerenciadas pela Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), 20 estão em estado de atenção, distribuídas por 12 municípios, especialmente nas regiões Central, Serrana, Metropolitana e Sul — áreas onde algumas bacias apresentam maior redução nas vazões. Esses pontos em atenção representam cerca de 19% dos sistemas monitorados; os outros 81% seguem operando normalmente e, até o momento, não há comprometimento generalizado do abastecimento público.
Seca fraca cobre 100% do território
Dados do Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) referentes a junho mostram que a seca fraca passou a alcançar 100% do Espírito Santo. Embora a severidade seja considerada baixa, a expansão do fenômeno representa um sinal de alerta: os efeitos de curto prazo incidem sobre a agricultura, pastagens e a umidade do solo.
O quadro atual apresenta semelhanças com junho de 2023, no início do último El Niño, quando também havia predominância de seca fraca no estado; as projeções atuais, contudo, apontam para um evento potencialmente mais intenso.
Aumento de focos de calor e incêndios
Monitoramentos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registraram aumento dos focos de calor. Em junho, o satélite referência detectou aproximadamente 70 focos no estado, acima da média histórica e perto do maior registro para o mês. Até 19 de julho, mais de 50 focos já haviam sido contabilizados pelo mesmo sensor; considerando todos os satélites monitorados pelo instituto, foram identificados 197 focos de calor no Espírito Santo entre 13 e 19 de julho.
Entre os municípios com maior número de registros no período, Alegre teve 57 ocorrências, seguida de Linhares com 13, Aracruz com 11, e Iúna e Cachoeiro de Itapemirim com 10 cada. O Corpo de Bombeiros atendeu 76 ocorrências de incêndio em vegetação no período analisado, número considerado dentro da normalidade para a época do ano.
As autoridades mantêm monitoramento ampliado das condições hidrológicas e meteorológicas e acompanham as consequências para abastecimento, agricultura e prevenção de incêndios.

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via A Gazeta – Clima


