Dados recentes mostram que cerca de 14% dos executivos nas empresas brasileiras são negros — o mesmo percentual aparece em posições de gerência, enquanto a participação nos conselhos de administração cai para apenas 5,5%. Esses números contrastam com a composição demográfica do país: negros representam 55% da população, e mulheres correspondem a 52%.
Além da baixa representação, estudos indicam que a desigualdade salarial entre brancos e negros é tão persistente que sua equiparação plena no Brasil levaria mais de 370 anos, segundo o Centro de Estudos e Dados das Desigualdades Raciais (Cedra).
Para o professor, escritor e doutor em Administração Helio Santos, o desperdício de talentos por causa dessas barreiras traz custos sociais e econômicos relevantes. Em visita a Vitória nesta quarta-feira (19), quando lançou o livro “14 de Maio: lições de resistência ao racismo” e participou do 4º Fórum Oportunidade Brasil (IOB), ele avaliou avanços e apontou medidas necessárias para acelerar a mudança.
Santos reconhece que houve progresso nas portas de entrada do mercado: programas de trainee, apontados como principal via para cargos de gestão, passaram a incluir vagas afirmativas. Entre as 1.100 maiores empresas que mantêm esse tipo de programa, 71% das vagas são ocupadas por pessoas pretas e pardas — um cenário que, segundo ele, poderá impactar a composição da alta liderança no médio prazo.
Ao mesmo tempo, o especialista ressalta que apenas abrir vagas não é suficiente. É preciso transformar a cultura organizacional para que a presença de profissionais negros e de mulheres seja efetiva e duradoura. Entre os pontos destacados por Santos estão a necessidade de metas ativas de inclusão, garantia de condições psicológicas e sentimento de pertencimento, e a implementação de políticas que agreguem valor real ao negócio.
Ele também chamou atenção para a importância do suporte material a estudantes que chegam às universidades por meio de ações afirmativas. Segundo Santos, assegurar transporte, alimentação e moradia é essencial para garantir a permanência até a conclusão do curso e evitar que o acesso se traduza apenas em oportunidade temporária.
Em sua análise, a adoção de programas de diversidade deixará de ser apenas uma opção ética e passará a ser um requisito de competitividade empresarial. Com produtos e serviços cada vez mais comoditizados, a responsabilidade social e a ética tornam-se diferenciais decisivos; o consumidor tenderá a optar por marcas que valorizem a equidade e tenham diversidade nas posições de gestão.
Santos também observou que tecnologias como a inteligência artificial poderão avaliar em tempo real indicadores relacionados à qualidade moral e ética das empresas, tornando mensuráveis aspectos que hoje são tratados de forma qualitativa.
Para reduzir as disparidades históricas, o professor defende combinação de políticas públicas e ações corporativas: metas de inclusão, programas de desenvolvimento e promoção interna, além de medidas de suporte material a estudantes, que, juntas, podem encurtar o longo caminho até a igualdade plena de oportunidades e remunerações.
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