Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central (BC), apresentou detalhes cruciais sobre o caso do Banco Master durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. A revelação central foi a estratégia incomum adotada pela instituição financeira em meio a uma severa crise de liquidez: a criação de novas carteiras de investimentos para captar recursos no mercado. Essa movimentação, contrária à lógica de um banco em dificuldades, foi o que imediatamente acendeu o sinal de alerta para a autoridade monetária.
A liquidez bancária, conceito fundamental no setor financeiro, refere-se à capacidade de um banco honrar seus compromissos de curto prazo, ou seja, ter dinheiro disponível para pagar o que deve. Em um cenário de escassez de recursos, a expectativa natural seria a venda de ativos para gerar caixa, e não a formação de novas carteiras, que demandam capital.
A Anomalia do Banco Master que Acendeu o Alerta no Banco Central
Galípolo foi enfático ao explicar a contradição que chamou a atenção do BC. “Se você tem um banco com dificuldade de liquidez, você não forma carteira. Se você está com dificuldade de dinheiro, você vende carteira. Aí tudo bem, mas como é que você está vendendo uma carteira nova? Foi isso que chamou a atenção do BC imediatamente”, detalhou o presidente aos senadores. Essa ação do Banco Master, presidido pelo banqueiro Daniel Vorcaro, indicava uma gestão que fugia dos padrões esperados para uma instituição em fragilidade financeira.
Cronologia da Intervenção e Medidas do BC
A atuação do Banco Central no caso Master foi defendida por Galípolo, que traçou uma cronologia dos eventos. Em novembro de 2024, um termo de compromisso foi assinado com o Banco Master, concedendo à instituição um prazo de seis meses para se adequar em termos de governança, capital e liquidez.
Após o acordo, o Master tentou captar recursos no mercado com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas logo enfrentou restrições para essa modalidade. Em seguida, buscou fundos de investimento, também sem sucesso. Diante das dificuldades, o banco intensificou a venda de carteiras de investimentos, um processo que já vinha realizando desde 2023, especialmente para o Banco Regional de Brasília (BRB).
A situação se agravou em janeiro de 2025, quando o Banco Master, apesar dos problemas de liquidez, começou a formar novas carteiras de investimentos. Essa persistência na estratégia levou o BC a criar um grupo específico para analisar detalhadamente essas novas operações.
Investigações e Suspeitas de Fraude Bilionária
A venda de carteiras de investimentos do Banco Master para o BRB, um banco público vinculado ao Governo do Distrito Federal (GDF), tornou-se alvo de uma investigação da Polícia Federal. As autoridades suspeitam de fraude em cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos negociados. O BRB chegou a tentar adquirir o Banco Master, mas a operação foi vetada pelo Banco Central, conforme noticiado pela Agência Brasil.
Antes da liquidação, o Banco Master ainda apresentou uma proposta alternativa, envolvendo supostos investidores árabes. No entanto, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou não ter tido conhecimento desses investidores. “Quando há rejeição da compra do BRB, o banco apresenta um segundo pedido de carta para o FGC e para o Banco Central, dizendo que faria uma saída organizada do mercado, ou seja, reconhece que o banco não é viável mais, mas que ele mesmo faria uma autoliquidação do banco, passando para esses investidores árabes. Jamais tive conhecimento deles”, completou Galípolo, evidenciando a falta de transparência na proposta.
Risco Sistêmico e a Defesa da Atuação do Banco Central
A liquidação extrajudicial do Banco Master ocorreu em 18 de novembro de 2025, dez meses após a formação das novas carteiras e a recusa da compra pelo BRB. Galípolo reiterou que essa medida não representou um risco sistêmico para o mercado financeiro brasileiro. Segundo ele, o Banco Master representava menos de 0,5% do sistema bancário, minimizando o potencial de uma crise generalizada. “Ele é um banco que não oferece risco sistêmico, ele é menos de 0,5% [do sistema bancário]. Parece-me que o que tem chamado a atenção das pessoas é o que se fazia com o dinheiro que estava no Banco Master”, ponderou.
O presidente do BC também fez questão de esclarecer que a liquidação de uma instituição financeira não deve ser vista como uma punição aos seus gestores, mas sim como uma consequência inevitável quando o banco atinge um ponto de inviabilidade. “Punir uma instituição que foi vítima de maus gestores é um equívoco. É dobrar a punição em quem é vítima, que são, inclusive, os correntistas daquela instituição. Então, liquidar uma instituição não é punir os gestores. Liquidar uma instituição, isso você só vai fazer porque aquela instituição chegou a um ponto específico”, concluiu, ressaltando a complexidade da decisão e o foco na proteção do sistema financeiro e dos depositantes.
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