A série “A Cultura da Divisa” encerra sua jornada destacando a relação entre Espírito Santo e Rio de Janeiro, com foco em Mimoso do Sul (ES), cidade que faz divisa com Campos dos Goytacazes (RJ). A vizinhança entre os dois municípios refletiu-se ao longo do tempo nas gírias, nos costumes gastronômicos e no repertório musical dos moradores de Mimoso do Sul.
Linguagem e cotidiano
Renato Pires Mofati, nascido e criado em Mimoso do Sul, observa que o convívio entre capixabas e cariocas resultou em expressões comuns nas conversas locais. Exemplos citados por ele incluem: “Papo Firme”, “Guria”, “Tô de boa”, “Bacana”, “Mina”, “Brother” e “Mano”.
Gastronomia com sotaque carioca
A influência carioca aparece com frequência na mesa mimosense. Costumes como o churrasco realizado nas lajes, a feijoada e o tradicional “cafezinho” marcaram especialmente as décadas de 1960 e 1970.
Sobre o café típico daquela época, Renato descreve a preparação: uma xícara média muito aquecida com café bem forte, sem açúcar, acompanhada por outra xícara de água quente para ajustar a bebida a gosto; o açúcar refinado era opcional. Segundo ele, essa forma de servir era comum em bares e restaurantes considerados de alto padrão.
Petiscos muito associados aos botecos cariocas também ganharam espaço em Mimoso do Sul: croquete, bolinho de bacalhau, mandioquinha, linguiça calabresa e queijos picados. Entre os pratos, destacam-se a peixada à moda carioca e o chuvisco, um doce à base de gema de ovo.
Música, lazer e trocas culturais
No campo musical, a influência do Rio aparece em diferentes momentos: nas décadas passadas, estilos como bossa nova e Jovem Guarda eram frequentes; mais recentemente, samba, pagode e MPB estão presentes nas rodas e apresentações locais.
“O Rio de Janeiro está muito próximo dos capixabas, sabendo que a divisa está logo ali, os ritmos se misturam”, afirma Renato, ao comentar a recepção de grupos de pagode e o repertório comum em bares e ocasiões de lazer. Moradores de Mimoso do Sul também costumam viajar ao Rio para turismo e encontros familiares, reforçando o intercâmbio cultural entre os estados.
Marcos históricos e identidade local
Mimoso do Sul foi a primeira cidade do Espírito Santo a receber os chamados trilhos do progresso: em 1895, a ferrovia cruzou o Rio Itabapoana (divisa entre os estados), vindo do Rio de Janeiro e alcançando a região da Ponte do Itabapoana (ES). Esse episódio fez parte da integração econômica e social entre as margens do rio.
Na paisagem urbana, a cidade também preserva referências ao ícone carioca ao abrigar uma estátua do Cristo Redentor inspirada no monumento do Rio de Janeiro, sinalizando a presença simbólica dessa influência na memória local.
Para Renato, a semelhança no temperamento — o carioca e o capixaba como pessoas comunicativas e bem-humoradas — ajudou a consolidar uma relação de amizade e troca cultural entre as duas comunidades.
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